Nem tudo verdade, nem tudo mentira.

Sexta-feira, Novembro 27, 2009

Pequenos transtornos cotidianos IV

Estava entusiasmada com o novo relacionamento. Pela primeira vez havia encontrado um homem educado, inteligente, charmoso, com classe.

Resolveu chamá-lo para jantar, e preparou tudo cuidadosamente, desde o ambiente perfumado com velas aromáticas até o Cabernet Sauvignon adquirido na última viagem ao Chile.

Tudo corria maravilhosamente bem, a conversa, o clima de romance no ar... Não havia dúvidas de que seria um encontro inesquecível.

Num determinado momento da noite, ele pede licença para ir ao banheiro. Ela foi ao quarto, ajeitou-se no espelho, borrifou suavemente seu perfume predileto. Ao sair, ele avisou que esperaria na sala.

Ao passar pelo corredor, ela olhou discretamente para o banheiro. Surpresa, com os olhos marejados e um nó na garganta, esforçou-se para olhá-lo de volta:

- Como pôde?

Ele assistia a cena, atônito, enquanto ela ajeitava raivosamente o tapetinho do banheiro, que havia sido deixado embolado, debaixo da pia.

Quinta-feira, Novembro 26, 2009

Sem tom

Todos os dias, ao voltar do trabalho, ele estava lá. Tocava lindas melodias no seu violino, e fazia com que o tumulto da estação Central parecesse até poético. Já fazia muitos dias que eu passava, e percebia aquelas almas cansadas se preencherem de música. Entretanto, a caixinha do violino permanecia vazia. Cansado de dar sem receber nada em troca, o violinista nos abandonou. Hoje, voltamos pra casa com os bolsos cheios, e a alma saudosa, em silêncio.

Terça-feira, Novembro 24, 2009

Qual é o seu nome mesmo?

Você tem a capacidade de guardar na sua memória os fatos, nunca os sentimentos. Já eu, sou uma caixinha de melancolias. Guardo tudo a meu favor ou contra, tenho um milhão de lembranças em potinhos empoeirados, só pra me fazer sofrer. E também sofro pelo medo de me tornar lembrança apagada, resto de sua memória-metade, pedaço de história de onda de fim de semana. No espaço, vasculho provas de amores eternizados entre palavras que o vento só não levou porque tem lugar que não venta. Então, me sinto pequenininha, mais uma entre tantas, tantas palavras que ainda nem ouvi. Desconfio dos silêncios, estremeço com os ecos, danço com fantasmas bailarinos que sorriem sarcásticos e escrevem um diário.

Segunda-feira, Novembro 23, 2009

Nosso mundo

E são esses olhos grandes e inquietos
sorridentes e silenciosos
que me livram dos pequenos cansaços

e além do fim de todos os dias
existe um novo mundo
que me espera e recomeça
no momento em que eu abro a porta.

Quarta-feira, Novembro 18, 2009

Todo mundo

Olhei ao redor e esqueci de mim. Fui preenchida por gestos, cheiros, sorrisos e lembranças. Preenchi-me de esperança. O dia passou. Não tive medo. Aprendi a olhar o mundo nos olhos. Ele me falou no ouvido que era apenas um menino grande e abandonado. Eu sorri, ele sorriu de volta. Fizemos as pazes.

Segunda-feira, Novembro 16, 2009

Sísifo

Tenho medo da dor, e o medo me dói.

Sexta-feira, Novembro 13, 2009

Carnaval fora de época

Mas que beleza que vai ser
quando me virem cantar

Lança-perfume pra anestesiar
a dor que nem existe mais

Mas que bonito que vai ser
quando eu trocar a fantasia

Não sou mais o Pierrot,
hoje eu sou a Colombina!